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Divagar e Sempre: Aquela vez que conheci Bill Barnfield

Estava no Hawaii, mais precisamente em Sunset Beach, no North Shore. Era minha 10º temporada havaiana mas era a primeira vez que tinha levado comigo uma de minhas pranchas de favoritas: uma monoquilha azul, feita por Bill Barnfield – um dos principais shapers da Lightning Bolt da década de 70. O cara fez pranchas para os principais nomes daquela era, como Gerry Lopez e Rory Russel.

Bem, voltando a minha história, um amigo que dividia um quarto comigo nessa viagem chegou em casa dizendo que tinha algo incrível para me contar. Ele tinha entrado em uma loja em Haleiwa e havia visto uma prancha igual a minha “mono azul”.

Também disse que conversou com um vendedor nesta loja e contou que conhecia um brasileiro que tinha uma prancha igualzinha aquela pendurada na parede. “Brasileiro? Não é possível”, disse o funcionário. Então, eis que aparece o tal Bill Barnfield, em carne e osso, dizendo que gostaria de conhecer o brasileiro que ainda tinha uma prancha dele.

Você pode imaginar minha cara de espanto. Agradeci meu amigo, lhe prometi um engradado de cerveja e fui para a tal loja no dia seguinte. Chegando lá expliquei minha história da forma mais breve possível. A pessoa que me atendeu foi direto ao ponto: “então você quer conhecer conhecer o Bill e trocar uma ideia com ele?” Ela apontou para a sua direita e me disse que o Bill era o cara de vermelho, a mais ou menos uns dois metros de nós. Ele obviamente percebeu que estávamos falando dele e veio na minha direção. Cumprimentei o cara com aquela cara de espanto de bocó.

Disse que tinha uma prancha dele e gostaria que ele desse uma olhada nela. Ele foi bem gente boa e pediu para que eu trouxesse a prancha. Assim que voltei do carro com a minha mono azul debaixo dos braços os olhos dele começaram a brilhar. Não sabia quem estava mais feliz, ele ou eu.

Ele pegava a prancha, virava de um lado para o outro e a partir daí não parou mais de falar. Pegou até uma lupa para tentar encontrar sua assinatura. Ele queria saber para quem havia feito aquela prancha. Bill disse que ela era de 1973. Sabia disso porque a borda estava com um caimento típico daquela época.

“Essa cor é muito curiosa. Esse azul não existe mais, era um pigmento feito de casca de besouros, não sei quantos besouros precisaram para fazer isso aqui mas pode ter certeza que isso não existe mais”, ele disse caindo na gargalhada.

“Vem aqui, vamos levar a prancha para minha sala de shape”. Perguntei se eu podia pegar minha câmera no carro e sai voando para registrar tudo. Quando voltei ele já tinha posicionado a prancha em um mini estudio de fotografia improvisado no fundo da loja. Luzes, um backdrop branco e tripé. Ele ajeitou a prancha, montou sua própria câmera e começou a fazer fotos da minha prancha. Eu já nem sabia como reagir a tudo aquilo.

Durante todo o tempo ele contava histórias e não parava de falar. Me perguntou como eu havia encontrado a prancha eu eu contei que tinha comprado ela em uma loja de surfe, em Guarujá-SP, por R$80,00.

Ele disse que fez pranchas para o Pepê, lenda do surfe carioca, e que foi ele quem conseguiu enfiar o Pepê na lista de convidados do Pipe Masters em 1976. Bill também disse que emprestou uma de suas próprias pranchas para que o Pepê pudesse competir naquele ano. “Ele era um surfista incrível”, lembrou.

Depois de fazer as fotos, ele disse que queria polir o fundo da prancha para que a gente pudesse encontrar sua assinatura. Ele poliu um pedaço da prancha, procurou sua assinatura mas só encontrou o desenho de um peixe que faz em todos os seus shapes. Satisfeito, ele olhou para mim e disse que ia polir a prancha inteira já que estava com a mão na massa. “Vai ficar linda!”, disse como se estivesse voltando no tempo.

Eu mal podia acreditar.

Percebi que ele estava tentando me impressionar, talvez porque me achou novo demais para entender a importância dele para a história do surfe na década de 70. Ele engatou a quinta marcha e passou a me dar uma verdadeira aula sobre sua importância na historia do surfe. Sem a menor preocupação em parecer modesto ou ferir o ego de outros nomes importantes da época.

Passei uma tarde inteira batendo papo com Bill Barnfield e conversamos por mais de quatro horas. Quando nos despedimos já era noite e a loja estava fechada. Prometi mandar fotos minhas surfando com a mono azul e ele ficou satisfeito.

Quando comprei aquela prancha, aos 15 anos de idade, nunca poderia imaginar a experiência que acabava de ter. Por muitos e muitos anos surfei com aquela prancha como se ela fosse o Santo Graal. Ela ficava pendurada na parede do meu quarto como um troféu e acendeu em mim a vontade de colecionar pranchas de surfe antigas. Mesmo escrevendo e fotografando tudo que aconteceu naquele dia, no Hawaii, é difícil explicar o significado de todo o processo.

Saí de lá profundamente grato e certo de que os verdadeiros heróis da nossa cultura estão longe dos holofotes por uma razão simples: eles se mantêm enraizados ao que realmente importa.

– Junior Faria

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