
Este é definitivamente o ano mais especial para o Brasil no circuito mundial da ASP. Após a vitória de Adriano de Souza em casa, na etapa carioca do WT, e a do fenômeno Gabriel Medina em Hossegor, na França, até o torcedor mais otimista não apostava 100% em uma nova vitória verde e amarela em Portugal.
Até que o Rip Curl Pro Portugal, nona prova do World Tour 2011, teve início em Supertubos, Peniche, em condições clássicas, o que, na teoria dos corneteiros do apocalipse de plantão, diminuiria ainda mais as chances dos brasileiros – tidos como maroleiros – vencerem a prova.
Nas primeiras fases, Kelly Slater, o detentor do título da prova portuguesa, venceu suas baterias sem susto. Já na tropa brazuca, Jadson, Miguel, Bruno Santos, Raoni e Alejo não conseguiram passar nenhuma fase. Medina foi o único a vencer de cara, para depois cair na terceira fase. Heitor foi bravo, pegou altos tubos e só perdeu para o Careca nas quartas-de-final, terminando em quinto.
Já Adriano de Souza…
“O surf se chama superação! Ontem fui o pior e hoje, fui um dos melhores. Obrigado a todos pela confiança, acima de tudo”
Disse ele através da sua página no Facebook, referindo-se a primeira fase do evento, quando perdeu de cara, somando apenas 4.87. Nas duas fases seguintes, Mineirinho se recuperou e venceu de forma incontestável seus confrontos.
Eis que chega o último dia de competição em Supertubos. O Mar mantinha-se perfeito e o desejo de ver uma final entre Mineiro e Slater tinha tudo para se concretizar. Após aquela bateria em Porto Rico, quando se estranharam e, na sequência, Kelly trucidou Mineiro para chegar ao deca, surgiu a maior e mais vibrante rivalidade do surf competitivo na atualidade. Que ganhou ainda mais emoção quando Adriano explodiu em Trestles, bradando ao Careca dentro d’água que a marcação ao adversário fazia parte do jogo – referindo-se ao que tinha acabado de acontecer em sua bateria contra o aussie Taj Burrow.
E só para dar aquela pitadinha de pimenta a gosto, Slater havia sido derrotado por Gabriel Medina na semifinal do evento anterior, na França, quando terminou visivelmente frustrado, precisando de uma combinação de notas para virar em cima do garoto.
O Careca não iria deixar barato e, com certeza, viria com tudo em Portugal. Ele estava realmente impossível em Supertubos. Até tubo de base trocada o cara surfou. Kelly chegou à final após despachar seu eterno freguês, Taj Burrow, em uma semi na qual obteve o maior score de todo o evento, 19.50 (notas 9.50 e 10).
Já Mineiro, também arrancou um 10 nas quartas, para depois passar na raça pelo sempre embaçado aussie Bede Durbidge, configurando uma das finais mais esperadas do ano no tour. Não ousaria comparar esta atual “pendenga” com a rivalidade histórica entre KS10 e Andy Irons, mas o fato é que, sem isso, onde está a graça?
No auge de seus 24 anos, Mineirinho chegara à tão aguardada final contra o mais aclamado surfistas de todos os tempos. Os 10 títulos que Slater carrega na mala, de nada importava naquele momento em Peniche. Supertubos estava dourado, com o terral compondo o visual alucinante daquele fim de tarde. E a tensão também estava no ar – e na água.
A buzina soou e foi dada a largada. Após uma onda bem fraca, Mineiro pega a sua segunda, encaixa no trilho, passa a sessão por dentro e sai do tubo vibrando intensamente, como sempre faz, e pedindo aos juízes a nota máxima com as palmas das mãos abertas. Mas o 9 assinalado na súmula fez jus a sua performance naquela direita portuguesa. Com certeza.
Daí pra frente, as ondas ficaram mais escassas. Quando já demonstrava estar impaciente, chegando ao final da bateria, Slater precisava de um 8,85. Uma esquerda surgiu e era daquelas que parecem sempre vir para ele milagrosamente no momento mais oportuno. Confesso que tremi na base quando aquela lustrosa careca ninja saiu pela porta dos fundos do tubo. Como os juízes sempre veem algo a mais nas ondas dele, achei que viraria. Até que saiu a nota… 7,90, me pareceu a nota perfeita para a feito de KS10 e, ainda mais perfeita para Adriano de Souza. Era chegada a tão esperada hora de comemorar em terras além mar.
Já no pódio, durante a cerimônia de premiação, Slater não escondia a enorme frustração. A expressão em seu rosto era idêntica àquela de seu antigo rival, Andy Irons, quando perdeu a final para ele em J-Bay, na última onda. Como se não fosse o bastante, para deixar o norte-americano ainda mais desconcertado, Mineiro discursou antes de ajoelhar-se aos pés de Slater:
“Gostaria de agradecer ao Kelly… Você é o maior de todos. Você já é 11 vezes campeão mundial e se não fosse por você, eu não estaria aqui hoje”.
– Adriano de Souza
O microfone foi passado para as mãos de Kelly, que soltou desconfortávelmente algumas palavras sobre o campeonato, mudando totalmente de assunto. O cara ficou realmente sem saber o que fazer. Mas, algumas horas depois em seu Twitter, ele fez questão de parabenizar o brasileiro.

E Mineirinho retribuiu, mais uma vez reverenciando o provável 11 vezes campeão do mundo.























